quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Melodia;

I was too weak to give in yet too strong to lose.

foto by nyc0

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Creio;

O sentido de liberdade, ao contrário do que se consta em todos, parece me encarcerar. Ínfimo tal qual uma sala quatro por quatro – não há liberdade o bastante naquela que o mundo dispõe a mim. Precisaria de outros oceanos tão profundos quanto galáxias em pleno tsunami para encontrar plenamente meu total desligamento, porque liberdade não o é. Uma intercessão entre planos dispostos no mesmo mundo, porém que me transfeririam para outros locais e épocas remotas. E se, caso não ficasse presa a algum emaranhado de cordas, o amago do que procuro me engolfaria por osmose.
Por que, porém, nos contemos com a liberdade? Aquilo que nos colocam como libertação não é a liberação em si – é preciso ir além e encontrar um desligamento. Há mais viagens que simples aviões, há mais terras que simples continentes, há mais mentes que simples humanos. São automóveis, estudos, trabalho e uma multidão de pessoas ao nosso redor e constamos isto como felicidade? Não vemos além de nossos olhos e podemos amplexar o pouco como se tal fosse a teoria de tudo?
Existe o aqui, mas existe também o além dentro deste espaço. Se nos fosse possível alcançá-lo, talvez o conceito de liberdade, tão vago e sufocante, devesse sofrer uma transformação. Com base nessa transformação minhas ideias sobre ampliação da libertação, ao ponto tangível de embalsar o desligamento, poderiam estar fundadas em verdades. Um meio de tocar o outro lado dentro do nosso lado sem nos destruirmos por completo, seria isto a liberdade?

foto by: ahermin

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Creio;


Você já pensou o que um sonho advindo de outro continente é capaz de fazer? Nunca passou pela sua cabeça que a origem certa dos furacões são sonhos indomáveis? Como o voo de uma borboleta dentro da Teoria do Caos, um coração pode se converter em chamas ao tocar uma fagulha onírica. Deixe tudo queimar, por favor, porque este furacão de fogo já está formado. Há um furacão de mentiras.

sábado, 23 de julho de 2011

Creio;

Um dia, enquanto descansávamos na grama primaveril, perguntei como deveria ser a morte. Você riu da minha capacidade absoluta de desvirtuar uma conversa animada para um caminho tão mórbido – “isso é tão você” – disse entre risos e uma cara séria fingida. E por uns instantes, após um silêncio anunciando seu processo de pensamento, fitou-me: “acho que nos esquecemos de tudo”; “tudo¿” – perguntei; “tudo” – afirmou, desta vez sério. Acho que nos perdemos em contemplações enquanto o mundo parecia correr mais rápido ao nosso redor – fora da nossa redoma de vidro. “Mas como posso esquecer você¿ Eu não conseguiria. Prometo não te esquecer”, apenas o vento me respondeu ao movimentar as folhas do outono – já era outono¿. Seu muro impenetrável – a Grande Muralha da China – rodou toda sua mente tornando cada acesso impossível, cada porta trancada. E as estações passaram sob os meus olhos ao passo que a trilha sonora muda de sua resposta me consumia. Os anos não mais podem ser contados a partir daquele momento – cinco ou talvez quinze anos – e preciso confessar: não mais me recordo de seu rosto – acredito que o inverno o cobriu com flocos invernais assim que me retirei daquele lugar, o nosso lugar. Lembro-me de você deitado ao meu lado cantando Rolling Stones – ou seria uma sonata¿ Há séculos não tramito por estas lembranças perdidas e agora tudo me soa tão remoto e dúbio. Mas como consegui esquecer¿ Como consegui esquecer a minha velha promessa de não te esquecer¿ Como¿

[foto by:oO-Rein-Oo]

terça-feira, 19 de julho de 2011

Neve;

Quando sinto que estou preste a ficar louca imagino-me em um lugar ermo e perdido, habitado apenas pela neve. Estou ali, encostada em uma rocha monocromática de negro rochoso e branco gelo, despida, porque, nesse lugar, tanto faz se estou em trajes de gala ou sem nada – não há ninguém para me julgar, então me soa mais prático imaginar-me nua. A névoa me consome ao mesmo tempo em que me serve de invólucro protetor, como uma segunda pele me protegendo dos agentes externos.
Com os olhos fechados, talvez para evitar receber alguma informação que não seja meu ostracismo, posso escutar sons de lobos uivando. Posso apenas escutá-los, não vê-los. Não, não posso vê-los porque eles não existem, entende? Ademais eles não podem existir. Se eles existirem teria, então, que forçar minha mente a criar outras mil coisas, como por exemplo, pequenos mamíferos, porque caso contrário os lobos morreriam de fome. E, no final do meu efeito dominó imaginário, acabaria tendo que criar Deus, mas Deus não se cria, é algo tão etéreo e assombrosamente grande que me seria impossível criá-lo nesse meu pequeno mundo gélido, por isso nem lobos nem outra coisa viva pode habitar meu pedaço de imaginação. Quando os lobos param de uivar o vento domina meus ouvidos, soprando intensamente contra mim, movendo as pequenas precipitações de cristais de gelo. Em um balé solitário, os flocos balanceiam pelo vazio brumado, e isso me dá a certeza de que estou viva. Minha intenção, talvez, com esse escapismo peculiar, não seja me dar segurança, mas apenas me convencer de que estou viva. O frio digladiando contra o calor do meu corpo me trás a sensação de que não apenas existo, mas sinto, vivo.
Às vezes chove gotas grossas e geladas, às vezes não – não sei se há um parâmetro concreto ou simplesmente sinto vontade de imaginar a água batendo em meu corpo como em um ritual de purificação. Provavelmente, penso eu, chove porque a água me agrada mais que a neve, entretanto a precipitação liquida não faz a menor diferença no rio alvo e desconcertante. Quando, no entanto, a solidão apavora-me, e quase sempre isso acontece, fecho os olhos com mais força e grito. Não que alguém vá escutar meu grito de socorro – reflito, agora, sobre o quão patético é gritar para o nada – mas é que simplesmente finjo que o grito não é meu, é de outra pessoa tão perdida quanto eu. Algo humano, vivo e pulsante fora de mim propaga uma sensação de amparo, como se segurando minha mão, principalmente se esse ser vivo estiver tão perdido quanto eu – estar acompanhado, até mesmo no desespero, é reconfortante.
A minha terra de lugar-algum é como um espelho que se pode pintar o que quiser. E na minha insanidade pinto o nada, porque isso é tudo o que tenho a oferecer, um grande nada branco. É o nada branco, contudo, que me salva e me regenera.

[foto by: Ivan-Suta]

domingo, 26 de junho de 2011

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Tirando as teias de aranhas e abrindo as janelas para tirar o mofo.

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 Já ouviu falar em “querer o braço todo”? Às vezes oferecemos a mão a alguém e esta pessoa “quer o braço todo”, como se não fosse o bastante. Eu te pedi um quarto do seu menor dedo – por que, como não tenho amor-próprio, considero isto o bastante – todavia esta humilde porção foi posta como dantesca. Mendiguei – solicitar tão pouco e ainda beirar a imploração é sim mendigar – o que já me pertence e, ainda por cima, fui taxada de gananciosa. Quanto ao fato de ter sido me negado o pouco solicitando não me alarmo, porém sim a certeza de que se fosse o inverso o faria como ainda lhe ofereceria todo meu braço, corpo, alma e o que mais desejasse. Isto sim me faz questionar qualquer afirmação, ainda mais aquelas acompanhadas de pontos de exclamação, feitas por você a mim. Todas as pessoas são diferentes, divergem e convergem, porém a humanidade não o deveria. Se somos todos humanos, então por que alguns negam o pão a outros enquanto uns o dão com tanto gosto? Afinal, o que se é preciso para ser humano e praticar a humanidade se se ser ser-humano não nos garante tal aspecto?
               Quiçá humanidade esteja relacionada à coragem; coragem de se entregar o seria¿ Alguns devem ter medo de depositar um pouco de si em outro corpo estranho. Mas viver é deixar uma pegada em cada local em que estamos presente – deixar pegada ou marca é deixar uma parte de si. Então, uns tem coragem de registrar sua passagem pelo mundo, mas não tem coragem de fazê-lo nas pessoas¿ É capaz de passar pelos locais mais belos, com os sorrisos mais fingidos, contudo não é capaz de quebrar a barreira do “educado”. Afinal, é falta de educação doar¿ Se o é, então como se pode viver? Caso contrário, então por que se tem vergonha de o executa-lo quando se tem coragem para mentiras?
               Não te pedi alimento – imagine, posso me manter sem você – mas sim atenção. Estava faminta de atenção e ao me negar um quarto da sua vasta atenção para com os outros me senti mendigando nas ruas. Compreenda que para me manter preciso quebrar a linha do saudável para o doentio: é assim que amo. Amar para mim é qualquer coisa que me deixa mais perto de um manicômio. Mas que loucura é esta que se nega? Que se priva e se contem dentro de um mundo intransponível e inacessível? O mundo das reservas, dos limites, das regras sociais não habita o mundo do romance. Este mundo esta reservado a hipocrisia das amizades falsas e das boas maneiras vazias – neste local nada nasce ou prospera. E, se você tem coragem de me negar sua excessiva atenção o que mais seria capaz de me privar?

Photo by: MissSepia